domingo, 29 de abril de 2012

[Zé Direta] - Sobrevivi I


"Quando você fala uma coisa e todo mundo fala o contrário, é porque você está errado" - Vó do Tomás​

Quando eu estava no curso técnico de informática, houve uma certa noite vazia e sem graça em que se deu uma calorosa discussão - não me lembro bem o assunto, mas o que rolou é que estávamos todos defendendo uma ideia, menos um cidadão, que insistia em dizer o contrário de todo mundo.​
"Meu filho, eu estou falando X. O André está falando X. O Joãozinho está falando X. A Maria Joaquina está falando X. Só você acho que é Y. Como diria minha vó, quando todo mundo pensa uma coisa e só você discorda, é porque você está errado, ponto.", disse um amigo meu.
Não preciso dizer que o sujeito ficou quietinho e posteriormente morreu afogado nas próprias lágrimas ao ir chorar no banheiro da escola. Isto porque o argumento é infalível mesmo: quantas vezes você negou tudo o que seus coleguinhas diziam e estava certo? Poucas, tenho certeza.
Mas aonde quero chegar com tudo isto?
Simples: ser assaltado não é, na maioria das vezes, um evento totalmente inesperado e aleatório, um golpe do destino. Eu diria até que grande parte das pessoas são abordadas porque estão implorando para isto acontecer - seja por andarem com objetos caros à mostra ou por insistirem em usar caminhos perigosos.
E o último caso foi o que aconteceu comigo hoje. Eu estaria mentindo se afirmasse que desconhecia o risco de passar pelos arredores de onde tudo rolou. Além de uns amigos já me darem um toque pessoalmente, ​a internerds tá cheia de relatos de pessoas que já se foderam ao tentar atravessar a praça.​​



Exemplo de bom samaritano oriental avisando que a região é perigosa



Exemplo de bom samaritano avisando que andar lá é pedir pra ser assaltado

 
Esse já é freguês
"Foda-se, os deuses nórdicos estão ao me lado e me protegerão das intempéries da vida. Amém​", pensei. 
Dito e feito. Após almoçar no SESI, onde as sobremesas têm descrições curiosas como "Pudim saudável" ou "Doce refrescante", fui fazer o mesmo caminho de sempre, passando pelo Carrefour, sempre com o iPod e um fone um pouco chamativo na cabeça. 
Aliás, o que me fez ignorar os avisos acima foi justamente o fato de eu ser muito rotineiro. Gosto de fazer sempre o mesmo trajeto, no mesmo horário - o que é mais um motivo pra ser assaltado, lógico.
Pois bem, estava eu alegre e saltitante ouvindo música e derretendo num s​ol provavelmente emprestado do Ceará, quando um cara chegou por trás e disse "passa o celular". "Puta que pariu, fodeu", raciocinei, como nas últimas 5x em que fui assaltado.
Eu sempre ando com duas coisas no bolso: um iPod Touch meio velhinho, mas que dá pro gasto pra fazer o que eu quero, e um celular tão tosco da LG que sequer achei uma imagem dele pra colocar aqui, pois esta merda nem tem o modelo escrito. De qualquer modo, fica óbvio dizer que meu celular não serve nem como troco - a mulher do caixa recusaria em prol de balinhas -, enquanto meu iPod, mesmo sendo meio antigo, tem lá seu valor. Aliás, quase todo mundo acha que é um iPhone e que, portanto, minha cozinha é um Mc Donalds, eu uso notas de U$ 100 pra me limpar quando acaba o papel higiênico importado de Paris e minha área de serviço tem um escorregador que liga minha casa ao Parque Aquático.
Enfim, o meliante não fazia ideia de sua ignorância ao pedir meu celular.
Acontece que eu já fui assaltado mais de uma vez e, sim, eu sempre reagi. Sei que isto parece absurdo, um atentado à vida e aos bons costumes, etc., mas será melhor explicado abaixo. Portanto, cuspi um sonoro "Não" para o desgraçado.
Nossa çinhora, nem preciso falar que aí o sangue do cara ferveu. Eu nem sabia o que fazer direito: olhei pros lados e, para a felicidade de satanás, provavelmente o semáforo anterior à praça estava fechado e simplesmente não tinha nenhum carro na rua. A pequena quadra estava igualmente vazia e os banquinhos, outrora utilizado por usuários de crack e cocaína, assistiam a tudo livres de qualquer marginal.
"Puta que pariu, fodeu", pensei comigo mesmo mais uma vez. Confesso que cheguei a hesitar - acabar logo com isto e safar minha vida ou continuar com meus queridos aparelhinhos?​
Sabem aquela velho clichê de quando você está prestes a morrer e tudo o que já aconteceu na sua vida passa pela sua cabeça como se fosse um filme? Pois bem, no meu caso, o que ​passou pela minha cabeça foi esta imagem:

Puta que pariu, só quem tem algo da Apple sabe como usar o iTunes é simplesmente uma merda. Se você quer adicionar só um mp3zinho de 3mbs, você é obrigado a abrir este programa de lixo, arrastar a música e esperar sincronizar o iPod - quando ele, em vez de simplesmente passar a porra da música para o aparelho, também faz a sincronização de contatos, o backup, o sistema anti bomba-atômica e a atualização da proteção contra o veneno de formigas. Ou seja, passar um simples arquivo pode ser bem chato, ainda mais se você precisar arrumar os álbuns e tal de maneira 100% organizada, como eu geralmente faço.
Lembrei também que devido a um problema com o Windows, eu fiquei uns 3 meses ouvindo tão somente a discografia do Legião Urbana. OK, Legião é realmente muito foda, mas eu já tava de saco cheio de ouvir tantas vezes as mesmas músicas. E justamente quando eu tinha mudado todas as músicas o cara iria me assaltar?​




Acima a melhor música do Legião. Haters Gonna Hate.


​Aliás, como se tudo isso não fosse o bastante, por uma incrível coincidência, eu passei o dia anterior arrumando todas as capas dos álbuns que eu tenho. Nossa, como dá trabalho procurar na Amazon imagem por imagem e depois passar pro iTunes. Pelo menos ficou bonito, parece até que comprei todos os CDs.​​
Enfim, o trabalho desgraçado proporcionado pela Apple me fez tomar a inevitável decisão: não vou dar nada, seu feio. HUMPF!
Aí que chegou a parte dramática da história. Ele, ao perceber que meus membros se assemelham muito a palitos Gina, simplesmente passou o braço pelo meu pescoço. Não entendi muito bem o que ele quis fazer com isso, pois ele não fez com força suficiente pra me sufocar ou algo assim. Aí que ficou claro: ele me deu um chute e me fez cair na grama da praça.
"Você quer morrer?", questionou ele com sua camisa polo listrada azul e preta.
"Puta que pariu, agora fodeu, de verdade mesmo", pensei pela terceira vez. Eu estava obviamente em desvantagem: caído e sem noção do que fazer, enquanto o cara permanecia em pé, só esperando para decidir como despedaçar meu romântico coração em 36 pedaços e distribuí-los entre seus 18 irmãos, fazendo com os restantes uma rifa valendo um DVD do Parangolé.​​​
Senti-me como Aeris ao ser morta por Sephirot. Só estava esperando o cidadão tirar do bolso uma faca, pistola, foice, machado, espada medieval ou algo do gênero. "Acabou", pensei comigo mesmo.​


​​​O Google Imagens me mostrou uns 15 hentais antes de chegar na imagem que eu queria
​​​​​
Então eu ativei meus instintos mais selvagens e simplesmente comecei a gritar enfurecidamente. "Sempre há uma luz no fim do túnel, nem que seja um trem vindo na sua direção", pensei.
"AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHAHHHHHHHHHHHHHHHAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH"
Para a minha surpresa, deu resultado. A rua continuava deserta, é verdade, mas um solitário motoqueiro que rodava pelos arredores viu minha situação e começou a dirigir mais lentamente. O cara que me assaltava percebeu sua incompetência em roubar uma pessoa com a força de um espaguete e simplesmente desistiu. Começou a se afastar, revezando o olhar para mim e para o sujeito da moto, quando a cena mais bizarra de toda a história aconteceu:
Percebemos que tinha um celular no chão. Eu fiquei olhando, até cheguei a dar um passo, mas desconfiei. Notei que meu iPod continuava firme e forte no meu bolso, bem como meu celular, que sentia inveja da moeda de R$0,50 com o qual dividia o espaço. E então o marginal, no au​ge da sua incapacidade de fazer algo que preste, bradou corajosamente:​
"É meu o celular, tá? Quer o meu celular também?".
Achei engraçado, mas eu ainda estava meio tenso para esboçar qualquer sorriso que fosse. O cara então foi se afastando e eu comecei a correr, acreditando firmemente que seria petrificado caso ousasse olhar para trás.
Agradeci o cara da moto, pois ele realmente salvou minha pele, e esclareci que o outro não tinha conseguido roubar nada, pois o celular do chão não era meu.​
​Resumo da história: perdi 5 minutos de música e mais uma vida de um total de sete.
Sou muito sortudo mesmo.

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